Fui apresentado ao diretor de cinema franco-argentino Gaspar Noé da pior ou melhor forma. Não sei. Assisti Clímax (2018) em uma tarde nublada em plena pandemia de Covid-19 confinado há quase três meses em casa. O filme chegou até mim depois que integrei um grupo de pessoas interessadas em discutir obras cinematográficas. Este foi o primeiro filme do grupo. Sem or!!!
*contém spoilers, anjos*
A princípio pensei se tratar de um drama comum com no mínimo um roteiro inusitado. Depois que vi algumas imagens naquele pequeno trailer que a Netflix dá imaginei ser algo mais boêmio, processos artísticos de dançarinos, essa coisa toda. Até acreditei nisso por hora.
O filme começa pelo final, como bem disse a Gislaine - colega do grupo. Os créditos passam no logo após uma cena intrigante: uma moça correndo na neve, caindo, depois se mexendo e revelando que estava ferida pois seu sangue manchou a neve. Após os créditos, somos apresentados aos personagens.
Uma televisão antiga cercada de livros e fitas cassetes transmite as entrevistas que os bailarinos deram para uma suposta seleção de elenco, ou corpo de baile. Falam sobre seus medos, algumas experiências com uso de drogas, razões pelas quais dançam, enfim. Perspicaz é a direção de Noé que ali já diz muito sem muito dizer. Basta reparar os títulos dos livros e das fitas para antevermos o que poderá vir pela frente.
A cena seguinte é a produção deste elenco. Em um espaço que parece uma quadra, ou um grande salão, temos uma grande cortina em três tecidos representando a bandeira francesa, uma mesa de DJ e o balé a frente executando uma coreografia de tirar o fôlego. Muitas linguagens corporais, muitas personalidades, diversidade, técnicas e repertório. Concluído o ensaio, os jovens pretendem se divertir em uma festa, uma confraternização onde rola bebidas, continuam dançando, alguns flertam e muitos conversam entre si. Então há cortes para diversos diálogos. Os personagens se descascam em suas conversas revelando desejos, intenções e percepções daquele coletivo.
O arco dramático começa a se elevar quando alguém levanta a hipótese de que a bebida servida na festa, a sangria (espécie de ponche), estaria batizada com LSD ou algo equivalente. Este é o ponto de virada do longa por que a partir dalí não nos será permitido saber se houve ou não adição de qualquer entorpecente na sangria. Alguns bailarinos começam a se queixar de que estão se sentindo mal e buscam saber quem teria aprontado tal artimanha. De primeira buscam um dos garotos que não bebem. Chegam a acreditar de que foi ele o responsável por aquela sacanagem e o colocam para fora do salão. Os conflitos não param por aí. A medida que a droga parece fazer efeito, a medida que a noite avança e cada qual se sente mais e mais submergido em si próprio é que as coisas só pioram. O grupo racha-se em suas individualidades, em suas neuroses íntimas. De primeira, até buscam entender o que está havendo, mas quanto mais o tempo passa mais alucinado fica o ambiente. As cenas que tinham um colorido agradável no início do filme são trocadas por tons escuros e claustrofóbicos. Noé investe em um jogo de camêra, praticamente sem cortes, que confunde o espectador. Entramos no filme, somos parte daquele delírio comum. Há violência, há sexo, há loucura em demasia. Comportamentos humanos naturais de quem se aventura no território do medo, da incerteza e da insegurânça. Por boa parte do filme acompanhamos Selva (Sofia Boutella) que age como agulha (nós somos a linha) penetrando em diversos ambientes, testemunhando ou nos revelando a insanidade dos demais.
Quando nossos olhos estão acostumados a todo aquele caos impulsionado não só pela imagem, mas também pela trilha sonora que não cessa (há música o tempo todo complementada, em alguns instantes, por gritos e choros) é que o filme nos aplica outro golpe. A câmera começa a girar no ritmo da embriaguez e da paranoia. Estamos no chão. Sim. Nós bebemos daquela sangria sem saber. Nada nos difere daqueles seres que vivem os absurdos do humano: desespero, crueldade, fraqueza, horror, nojo, desejo, indiferença. O nosso corpo passa a funcionar para o filme, já estamos lá dentro e o que queremos é acabar com tudo aquilo. Qual saída? Morrer, dormir? Os desfechos começam a surgir quando dois abrem a porta do salão. Parecem dois policiais. Com a luz e a intromissão da realidade, quem tem condições recobra o mínimo de consciência que a noite lhe poupou. Outros descansam suas gasturas ou outros destinos.
É terrível, alucinante e belo. A sociedade contemporânea está toda ali representada naqueles jovens bailarinos. O pudor foi trancado há muito tempo em uma saleta com as caixas de energia elétrica do espaço. Perderam as chaves. O delírio dos outros também é meu delírio. Noé explora a insanidade de cada indivíduo e como ela pode se relacionar em um grupo. O grupo é geral, uma vez que somos gerais e humanos, seja na França, seja aqui. Eu queria ser mais filosófico nesta resenha e até citar algumas reflexões com o pensamento de Hannah Arendt no conceito de banalidade do mal. Foucault poderia aparecer também, mas, sei lá. Isso aqui virou o que deveria ser. Um delírio, mas está muito organizadinho, então é uma resenha brega de uma obra no mínimo singular. Tem no Netflix, se isso não ficou claro.




