quarta-feira, 17 de junho de 2020

cinephilia / Clímax: o delírio comum na obra de Gaspar Noé




            Fui apresentado ao diretor de cinema franco-argentino Gaspar Noé da pior ou melhor forma. Não sei. Assisti Clímax (2018) em uma tarde nublada em plena pandemia de Covid-19 confinado há quase três meses em casa. O filme chegou até mim depois que integrei um grupo de pessoas interessadas em discutir obras cinematográficas. Este foi o primeiro filme do grupo. Sem or!!!

*contém spoilers, anjos*
            
A princípio pensei se tratar de um drama comum com no mínimo um roteiro inusitado. Depois que vi algumas imagens naquele pequeno trailer que a Netflix dá imaginei ser algo mais boêmio, processos artísticos de dançarinos, essa coisa toda. Até acreditei nisso por hora.
            O filme começa pelo final, como bem disse a Gislaine - colega do grupo. Os créditos passam no logo após uma cena intrigante: uma moça correndo na neve, caindo, depois se mexendo e revelando que estava ferida pois seu sangue manchou a neve. Após os créditos, somos apresentados aos personagens.
            Uma televisão antiga cercada de livros e fitas cassetes transmite as entrevistas que os bailarinos deram para uma suposta seleção de elenco, ou corpo de baile. Falam sobre seus medos, algumas experiências com uso de drogas, razões pelas quais dançam, enfim. Perspicaz é a direção de Noé que ali já diz muito sem muito dizer. Basta reparar os títulos dos livros e das fitas para antevermos o que poderá vir pela frente.


            A cena seguinte é a produção deste elenco. Em um espaço que parece uma quadra, ou um grande salão, temos uma grande cortina em três tecidos representando a bandeira francesa, uma mesa de DJ e o balé a frente executando uma coreografia de tirar o fôlego. Muitas linguagens corporais, muitas personalidades, diversidade, técnicas e repertório. Concluído o ensaio, os jovens pretendem se divertir em uma festa, uma confraternização onde rola bebidas, continuam dançando, alguns flertam e muitos conversam entre si. Então há cortes para diversos diálogos. Os personagens se descascam em suas conversas revelando desejos, intenções e percepções daquele coletivo. 
        O arco dramático começa a se elevar quando alguém levanta a hipótese de que a bebida servida na festa, a sangria (espécie de ponche), estaria batizada com LSD ou algo equivalente. Este é o ponto de virada do longa por que a partir dalí não nos será permitido saber se houve ou não adição de qualquer entorpecente na sangria. Alguns bailarinos começam a se queixar de que estão se sentindo mal e buscam saber quem teria aprontado tal artimanha. De primeira buscam um dos garotos que não bebem. Chegam a acreditar de que foi ele o responsável por aquela sacanagem e o colocam para fora do salão. Os conflitos não param por aí. A medida que a droga parece fazer efeito, a medida que a noite avança e cada qual se sente mais e mais submergido em si próprio é que as coisas só pioram. O grupo racha-se em suas individualidades, em suas neuroses íntimas. De primeira, até buscam entender o que está havendo, mas quanto mais o tempo passa mais alucinado fica o ambiente. As cenas que tinham um colorido agradável no início do filme são trocadas por tons escuros e claustrofóbicos. Noé investe em um jogo de camêra, praticamente sem cortes, que confunde o espectador. Entramos no filme, somos parte daquele delírio comum. Há violência, há sexo, há loucura em demasia. Comportamentos humanos naturais de quem se aventura no território do medo, da incerteza e da insegurânça. Por boa parte do filme acompanhamos Selva (Sofia Boutella) que age como agulha (nós somos a linha) penetrando em diversos ambientes, testemunhando ou nos revelando a insanidade dos demais.
        Quando nossos olhos estão acostumados a todo aquele caos impulsionado não só pela imagem, mas também pela trilha sonora que não cessa (há música o tempo todo complementada, em alguns instantes, por gritos e choros) é que o filme nos aplica outro golpe. A câmera começa a girar no ritmo da embriaguez e da paranoia. Estamos no chão. Sim. Nós bebemos daquela sangria sem saber. Nada nos difere daqueles seres que vivem os absurdos do humano: desespero, crueldade, fraqueza, horror, nojo, desejo, indiferença. O nosso corpo passa a funcionar para o filme, já estamos lá dentro e o que queremos é acabar com tudo aquilo. Qual saída? Morrer, dormir? Os desfechos começam a surgir quando dois abrem a porta do salão. Parecem dois policiais. Com a luz e a intromissão da realidade, quem tem condições recobra o mínimo de consciência que a noite lhe poupou. Outros descansam suas gasturas ou outros destinos.


        É terrível, alucinante e belo. A sociedade contemporânea está toda ali representada naqueles jovens bailarinos. O pudor foi trancado há muito tempo em uma saleta com as caixas de energia elétrica do espaço. Perderam as chaves. O delírio dos outros também é meu delírio. Noé explora a insanidade de cada indivíduo e como ela pode se relacionar em um grupo. O grupo é geral, uma vez que somos gerais e humanos, seja na França, seja aqui. Eu queria ser mais filosófico nesta resenha e até citar algumas reflexões com o pensamento de Hannah Arendt no conceito de banalidade do mal. Foucault  poderia aparecer também, mas, sei lá. Isso aqui virou o que deveria ser. Um delírio, mas está muito organizadinho, então é uma resenha brega de uma obra no mínimo singular. Tem no Netflix, se isso não ficou claro.

terça-feira, 16 de junho de 2020

entre-páginas / Espere a primavera, Bandini de John Fante - até a pág. 89





        Iniciei a leitura de Espere a primeira, Bandini na sexta-feira, 12 de junho, logo após concluir A revolução dos bichos, de George Orwell. Estava bastante ansioso para começar esta leitura pois já tinha a recomendação deste livro feita pela Paula Fábrio em 2017 durante seu módulo no CLIPE e por ter lido os contos de Fante há alguns anos. De alguma forma, me sinto muito atraído pela prosa de John.
           Desde que li A grande fome percebi aspectos de escritas bem queridos a mim. Seus textos surgem sempre carregados de memórias e contextos que parecem bem próximos da vida do autor. Os narradores também estão bem livres para contar suas histórias. Gosto de como descreve as personagens, de como o foco narrativo ás vezes escapa da narração, submerge na consciência das personagens e depois torna ao espaço inicial com fluidez, o que torna sua obra - até aqui - impecável e de grandes lições para qualquer ficcionista.
           Estou na página 89 do romance. Até aqui fui apresentado à família de Svevo Bandini composta pela sua esposa Maria, seus filhos Arturo, August e Federico. Outras figuras aparecem por enquanto, mas com poucas participações, por hora. Há o amigo de Svevo, Rocco, por quem Maria tem muito receio. A mãe de Maria, Donna Toscana, cuja apresentação é incrível:

"Donna Toscana agora era uma mulher imensa, sempre vestida de preto desde a morte do marido. Debaixo da seda negra havia anáguas, quatro delas, todas em cores vivas. Seus tornozelos intumescidos pareciam papos. Seus pequeninos sapatos pareciam prestes a estourar sob a pressão dos 110 quilos. Não dois, mas uma dúzia de seios pareciam esmagados no seu peito. Era constituída como uma pirâmide, sem quadris. Havia tanta carne em seus braços que eles pendiam não para baixo, mas num ângulo, os dedos inchados bamboleando como salsichas. Não tinha praticamente nenhum pescoço. Quando virava a cabeça, a carne flácida mexia-se com a melancolia de cera derretida. Um escalpo rosado aparecia debaixo dos cabelos brancos ralos. Seu nariz era fino e delicado, mas os olhos eram como uvas pisoteadas. Sempre que falava, os dentes postiços tagarelavam distraidamente numa linguagem toda sua." 

            Se Fante quisesse descrever mais Donna Toscana eu toparia. Além dos personagens já citados, aparecem também Rosa, uma suposta namorada do filho mais velho, Arturo - que é praticamente o protagonista do livro, embora divida atenções do narrador com sua mãe e com seu pai - e o Sr. Craik, dono do armazém vizinho à casa dos Bandini onde a família possui uma dívida a perder de vista.
             Um outro ponto que me aproxima muito de Fante é quando aborda a fé cristã dos personagens. Como o escritor era ítalo-americano, não é de se surpreender que sua formação religiosa seja toda em cima do catolicismo. No livro, Maria é a mais praticante. Há cenas em que se consola e foge da vida rezando o terço em uma cadeira na sala. Svevo já não é tão crente e muitas vezes questiona a fé e a tradição. Um dos filhos quer ser padre, August se não me engano. E Arturo é coroinha na igreja, junto de seu irmão, e se divide entre questionar os preceitos católicos e ser um bom e temeroso fiel. Arturo ganha a cena toda vez em que aparece. Está no início da adolescência, não é lá muito paciente com seus irmãos, tenta enganar a mãe e é apaixonado em Rosa, que o detesta.
            Pelo que posso perceber, Arturo tem essa personalidade difícil e provocadora não só pela idade em que está, mas por assistir ao fracasso de sua família por toda a vida. Seus irmãos são bem mais distraídos, até por que tem uns aos outros.
            Lembro que quando Paula Fábrio indicou o livro mencionou que Fante era bastante elogiado pela maneira como iniciava seus livros. É verdade. Fante inicia o livro e também os demais capítulos sempre com uma ação ou situação em frases curtas. Insere rapidamente seu leitor no ambiente ou tempo que precisa para desenvolver as cenas posteriores:

Capítulo 1: "Ele veio, chutando a neve funda." (Esse início é bem interessante, uma vez que nos coloca diretamente no inverno americano, o que é muito simbólico - afinal o título do livro é "Espere a primavera, Bandini" e deve anteceder algum acontecimento importante na trama durante a virada da estação. Quem vem chutando é o pai, Svevo.)
 

Capítulo 2: "Faltava um quarto para as três na sala da oitava série em St. Catherine's." (Estamos na escola e Arturo começa já a despontar no romance. Outra referência religiosa.)
 
Capítulo 3: "Maria estava doente." (Este capítulo é todo dedicado a apresentar melhor Maria, inclusive é nesta parte que sua mãe aparece.)

            Estou no capítulo 5, e por enquanto, tenho a percepção de que Svevo, Maria e Arturo são os protagonistas e todo o enredo gira em torno de seus sentimentos e ações. Maria parece representar o clima interior do lar dos Bandini, ao passo que Svevo está situado no fora, no ambiente externo (até por que ele parece querer fugir daquela sua realidade). Arturo percorre ambos os espaços, está sempre aqui e ali. Os outros filhos orbitam entre Maria e o irmão mais velho, Arturo. Não faço muita ideia do que possa vir pela frente, acredito que a família não vá prosperar e o que lerei será como cada um dos personagens lidará com as consequências.
             Tenho várias especulações, mas que reservarei por hora. Publicarei uma resenha completa assim que encerrar a leitura, talvez até domingo já que o livro passa das 200 páginas. Até lá. Ou antes, quem sabe?

*Foto de John Fante, provavelmente com sua família. Não achei mais informações.


 

editorial 1 / Os passos em volta: a ficção desde mim



A lua, Tarsila do Amaral (1928)

"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. "
HERBERTO HELDER 

    O que tenho perdido nestes meus trinta anos são as contas, as quantas. Já não sei mais quantas vezes comecei coisas, projetos, livros e até mesmo blogs. Não imagino a conta se somar tudo o que já desisti. Também não importa, a esta hora. Verdade é que sou perseverante e se existe algo indissociável a mim, durante esse tempo todo de existência, é a vontade de contar história para o outro. Eu tenho uma necessidade íntima com meu interlocutor. 
    Este blog eu queria chamá-lo de Os passos em volta. O título seria muito coerente. Não só pela homenagem à obra que mais gosto de Herberto Helder, mas também pelo sentido literal que o título expressa. A ligação que tenho com estas quatro palavras exprimem muito bem a relação que tenho com a ficção. A vida toda passo circulando esta esfera. Em volta. Hora mais perto, hora distante, nunca livre. Ás vezes lendo, outrora escrevendo, assistindo algum filme, estudando alguma tela. A ficção como um lago onde rodeio, onde bebo, onde me vejo e, sendo mais romântico, onde me afogo. Os passos são minhas produções que desde muito jovem tenho explorado.
    Uma lembrança curiosa que tenho da infância é dos momentos em que passei datilografando contos infantis encontrados em um livro didático. Em casa havia um volume da coleção "Porta Aberta" para a segunda série. Não sei de quem era aquele livro, talvez um dos meus irmãos tenha usado na escola e não devolvido, enfim, o livro estava lá. Era bonito, limpo, muito bem conservado. A capa era cinza, aludia à uma porta com uma criança tentando alcançar a fechadura. Eu já sabia ler, deveria estar na primeira ou segunda série. Fui alfabetizado com cerca de seis anos em uma escola de Educação Infantil localizada na Vila Ema, dentro de uma empresa de ônibus. Desde a primeira vez que consegui juntar letras e decodificar palavras, não parei mais e treinei a fluência em livros didáticos ou gibis da Mônica. Mas está não é a história. Haviam vários textos naquele livro como é de praxe nestas publicações. Ali conheci nomes como o da Ruth Rocha e Bartolomeu Campos de Queirós. Entre tantas histórias, eu lembro de um conto sobre uma minhoca. Na ilustração, ela usava laço de fita e vestido. Se não me engano, a narrativa falava da minhoca conversando com um escritor, algo assim, parece que ela queria entrar em uma de suas histórias. Tentei uma busca no Google agora e não encontrei nada. O meu irmão do meio, o Nenê, tinha uma máquina de escrever, uma Olivetti College, muito bem conservada que guardava em um estojo de plástico também cinza. Ele me deixava escrever nela. Como na época eu já tinha uma escrevaninha (pedi muito a meu pai uma até por que eu gostava muito de desenhar também e este talvez tenha sido o meu maior brinquedo da infância já que não tive uma boneca de sereia), colocava a máquina sobre a superfície envidraçada, o livro aberto no canto direito e começava a datilografar a história. Não me perguntem por que aquilo era mágico, mas eu gastei boas horas naquele passatempo. As letrinhas sendo lançadas na folha, a fita preta e vermelha que se levantava, os barulhos da máquina para trocar de linha. Eu gostava. Não lembro de compartilhar aquelas folhas com ninguém. Era um fascínio egoísta. Na época, eu escrevia apenas para mim. As histórias dos outros só mereciam meus olhos e quando as transcreviam, de alguma forma, se tornavam minhas. Não havia nenhum orgulho autoral naquele momento. A ficção era minha? Os primeiros passos em volta.
    Cresci e já não recordo o fim daquelas histórias roubadas, o que meu irmão fez com a máquina e tampouco onde foi parar aquele livro. Verdade é que depois daquelas tardes desandei a inventar personagens e inseri-los em narrativas que inventava a partir dos universos que gostava. Sereias, cisnes, heróis, por aí vai. A cada momento da minha vida estive de um lado da ficção: histórias em quadrinhos, peças de teatro, contos, blogs, músicas e romances inacabados. Publiquei meu primeiro livro com vinte e cinco anos. Agora estou aqui inaugurando esta nova plataforma. Um blog que chamarei de revista solo por que almejo publicar diferentes textos, mas todos a partir desses passos em volta. Homo fictus é a designação que ficcionistas e estudiosos dão para os seres imagéticos que povoam os territórios de nossas histórias. Alguém tomou Os passos em volta de mim, registrou um blog com este nome e não usa (!). Está ótimo. Homo fictus também cabe perfeitamente em mim.