Iniciei a leitura de Espere a primeira, Bandini na sexta-feira, 12 de junho, logo após concluir A revolução dos bichos, de George Orwell. Estava bastante ansioso para começar esta leitura pois já tinha a recomendação deste livro feita pela Paula Fábrio em 2017 durante seu módulo no CLIPE e por ter lido os contos de Fante há alguns anos. De alguma forma, me sinto muito atraído pela prosa de John.
Desde que li A grande fome percebi aspectos de escritas bem queridos a mim. Seus textos surgem sempre carregados de memórias e contextos que parecem bem próximos da vida do autor. Os narradores também estão bem livres para contar suas histórias. Gosto de como descreve as personagens, de como o foco narrativo ás vezes escapa da narração, submerge na consciência das personagens e depois torna ao espaço inicial com fluidez, o que torna sua obra - até aqui - impecável e de grandes lições para qualquer ficcionista.
Estou na página 89 do romance. Até aqui fui apresentado à família de Svevo Bandini composta pela sua esposa Maria, seus filhos Arturo, August e Federico. Outras figuras aparecem por enquanto, mas com poucas participações, por hora. Há o amigo de Svevo, Rocco, por quem Maria tem muito receio. A mãe de Maria, Donna Toscana, cuja apresentação é incrível:
"Donna Toscana agora era uma mulher imensa, sempre vestida de preto desde a morte do marido. Debaixo da seda negra havia anáguas, quatro delas, todas em cores vivas. Seus tornozelos intumescidos pareciam papos. Seus pequeninos sapatos pareciam prestes a estourar sob a pressão dos 110 quilos. Não dois, mas uma dúzia de seios pareciam esmagados no seu peito. Era constituída como uma pirâmide, sem quadris. Havia tanta carne em seus braços que eles pendiam não para baixo, mas num ângulo, os dedos inchados bamboleando como salsichas. Não tinha praticamente nenhum pescoço. Quando virava a cabeça, a carne flácida mexia-se com a melancolia de cera derretida. Um escalpo rosado aparecia debaixo dos cabelos brancos ralos. Seu nariz era fino e delicado, mas os olhos eram como uvas pisoteadas. Sempre que falava, os dentes postiços tagarelavam distraidamente numa linguagem toda sua."
Se Fante quisesse descrever mais Donna Toscana eu toparia. Além dos personagens já citados, aparecem também Rosa, uma suposta namorada do filho mais velho, Arturo - que é praticamente o protagonista do livro, embora divida atenções do narrador com sua mãe e com seu pai - e o Sr. Craik, dono do armazém vizinho à casa dos Bandini onde a família possui uma dívida a perder de vista.
Um outro ponto que me aproxima muito de Fante é quando aborda a fé cristã dos personagens. Como o escritor era ítalo-americano, não é de se surpreender que sua formação religiosa seja toda em cima do catolicismo. No livro, Maria é a mais praticante. Há cenas em que se consola e foge da vida rezando o terço em uma cadeira na sala. Svevo já não é tão crente e muitas vezes questiona a fé e a tradição. Um dos filhos quer ser padre, August se não me engano. E Arturo é coroinha na igreja, junto de seu irmão, e se divide entre questionar os preceitos católicos e ser um bom e temeroso fiel. Arturo ganha a cena toda vez em que aparece. Está no início da adolescência, não é lá muito paciente com seus irmãos, tenta enganar a mãe e é apaixonado em Rosa, que o detesta.
Pelo que posso perceber, Arturo tem essa personalidade difícil e provocadora não só pela idade em que está, mas por assistir ao fracasso de sua família por toda a vida. Seus irmãos são bem mais distraídos, até por que tem uns aos outros.
Lembro que quando Paula Fábrio indicou o livro mencionou que Fante era bastante elogiado pela maneira como iniciava seus livros. É verdade. Fante inicia o livro e também os demais capítulos sempre com uma ação ou situação em frases curtas. Insere rapidamente seu leitor no ambiente ou tempo que precisa para desenvolver as cenas posteriores:
Capítulo 1: "Ele veio, chutando a neve funda." (Esse início é bem interessante, uma vez que nos coloca diretamente no inverno americano, o que é muito simbólico - afinal o título do livro é "Espere a primavera, Bandini" e deve anteceder algum acontecimento importante na trama durante a virada da estação. Quem vem chutando é o pai, Svevo.)
Capítulo 2: "Faltava um quarto para as três na sala da oitava série em St. Catherine's." (Estamos na escola e Arturo começa já a despontar no romance. Outra referência religiosa.)
Capítulo 3: "Maria estava doente." (Este capítulo é todo dedicado a apresentar melhor Maria, inclusive é nesta parte que sua mãe aparece.)
Estou no capítulo 5, e por enquanto, tenho a percepção de que Svevo, Maria e Arturo são os protagonistas e todo o enredo gira em torno de seus sentimentos e ações. Maria parece representar o clima interior do lar dos Bandini, ao passo que Svevo está situado no fora, no ambiente externo (até por que ele parece querer fugir daquela sua realidade). Arturo percorre ambos os espaços, está sempre aqui e ali. Os outros filhos orbitam entre Maria e o irmão mais velho, Arturo. Não faço muita ideia do que possa vir pela frente, acredito que a família não vá prosperar e o que lerei será como cada um dos personagens lidará com as consequências.
Tenho várias especulações, mas que reservarei por hora. Publicarei uma resenha completa assim que encerrar a leitura, talvez até domingo já que o livro passa das 200 páginas. Até lá. Ou antes, quem sabe?
*Foto de John Fante, provavelmente com sua família. Não achei mais informações.
