A lua, Tarsila do Amaral (1928)
"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. "
HERBERTO HELDER
O que tenho perdido nestes meus trinta anos são as contas, as quantas. Já não sei mais quantas vezes comecei coisas, projetos, livros e até mesmo blogs. Não imagino a conta se somar tudo o que já desisti. Também não importa, a esta hora. Verdade é que sou perseverante e se existe algo indissociável a mim, durante esse tempo todo de existência, é a vontade de contar história para o outro. Eu tenho uma necessidade íntima com meu interlocutor.
Este blog eu queria chamá-lo de Os passos em volta. O título seria muito coerente. Não só pela homenagem à obra que mais gosto de Herberto Helder, mas também pelo sentido literal que o título expressa. A ligação que tenho com estas quatro palavras exprimem muito bem a relação que tenho com a ficção. A vida toda passo circulando esta esfera. Em volta. Hora mais perto, hora distante, nunca livre. Ás vezes lendo, outrora escrevendo, assistindo algum filme, estudando alguma tela. A ficção como um lago onde rodeio, onde bebo, onde me vejo e, sendo mais romântico, onde me afogo. Os passos são minhas produções que desde muito jovem tenho explorado.
Uma lembrança curiosa que tenho da infância é dos momentos em que passei datilografando contos infantis encontrados em um livro didático. Em casa havia um volume da coleção "Porta Aberta" para a segunda série. Não sei de quem era aquele livro, talvez um dos meus irmãos tenha usado na escola e não devolvido, enfim, o livro estava lá. Era bonito, limpo, muito bem conservado. A capa era cinza, aludia à uma porta com uma criança tentando alcançar a fechadura. Eu já sabia ler, deveria estar na primeira ou segunda série. Fui alfabetizado com cerca de seis anos em uma escola de Educação Infantil localizada na Vila Ema, dentro de uma empresa de ônibus. Desde a primeira vez que consegui juntar letras e decodificar palavras, não parei mais e treinei a fluência em livros didáticos ou gibis da Mônica. Mas está não é a história. Haviam vários textos naquele livro como é de praxe nestas publicações. Ali conheci nomes como o da Ruth Rocha e Bartolomeu Campos de Queirós. Entre tantas histórias, eu lembro de um conto sobre uma minhoca. Na ilustração, ela usava laço de fita e vestido. Se não me engano, a narrativa falava da minhoca conversando com um escritor, algo assim, parece que ela queria entrar em uma de suas histórias.Tentei uma busca no Google agora e não encontrei nada.O meu irmão do meio, o Nenê, tinha uma máquina de escrever, uma Olivetti College, muito bem conservada que guardava em um estojo de plástico também cinza. Ele me deixava escrever nela. Como na época eu já tinha uma escrevaninha (pedi muito a meu pai uma até por que eu gostava muito de desenhar também e este talvez tenha sido o meu maior brinquedo da infância já que não tive uma boneca de sereia), colocava a máquina sobre a superfície envidraçada, o livro aberto no canto direito e começava a datilografar a história. Não me perguntem por que aquilo era mágico, mas eu gastei boas horas naquele passatempo. As letrinhas sendo lançadas na folha, a fita preta e vermelha que se levantava, os barulhos da máquina para trocar de linha. Eu gostava. Não lembro de compartilhar aquelas folhas com ninguém. Era um fascínio egoísta. Na época, eu escrevia apenas para mim. As histórias dos outros só mereciam meus olhos e quando as transcreviam, de alguma forma, se tornavam minhas. Não havia nenhum orgulho autoral naquele momento. A ficção era minha? Os primeiros passos em volta.
Cresci e já não recordo o fim daquelas histórias roubadas, o que meu irmão fez com a máquina e tampouco onde foi parar aquele livro. Verdade é que depois daquelas tardes desandei a inventar personagens e inseri-los em narrativas que inventava a partir dos universos que gostava. Sereias, cisnes, heróis, por aí vai. A cada momento da minha vida estive de um lado da ficção: histórias em quadrinhos, peças de teatro, contos, blogs, músicas e romances inacabados. Publiquei meu primeiro livro com vinte e cinco anos. Agora estou aqui inaugurando esta nova plataforma. Um blog que chamarei de revista solo por que almejo publicar diferentes textos, mas todos a partir desses passos em volta. Homo fictus é a designação que ficcionistas e estudiosos dão para os seres imagéticos que povoam os territórios de nossas histórias. Alguém tomou Os passos em volta de mim, registrou um blog com este nome e não usa (!). Está ótimo. Homo fictus também cabe perfeitamente em mim.
